Honorius Causa: "Sempre me senti sozinho", a entrevista sobre o álbum "Solidão"
Internacional19 de outubro de 2026

Honorius Causa: "Sempre me senti sozinho", a entrevista sobre o álbum "Solidão"

Pedro Honório, fundador dos 605 Forte e hoje em Dublin, fala do primeiro disco em nome próprio: neurodivergência, paternidade, os subúrbios de Lisboa e um álbum lançado uma faixa por mês.

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Admin Tribhus

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O Honorius Causa é o projeto a solo de Pedro Honório, baixista e letrista português que fundou os 605 Forte em 1991, passou pelos Bruteforce e hoje vive em Dublin. Aos 50 anos, ele lançou o primeiro disco em nome próprio, "Solidão": dez faixas entre o hardcore, o thrash e o nu metal, soltas uma por mês, sem editora.

A Tribhus acompanha o projeto desde abril, quando apresentou "Miúdos do Subúrbio Esquecido", e depois "No Tecer dos Anos I". Com o álbum completo, mandamos as perguntas por escrito. As respostas saem na íntegra e no português de Portugal em que foram escritas. A única coisa retirada foi uma referência a uma imagem que veio anexada ao e-mail.

Pedro Honório, baixista e voz do projeto Honorius Causa

O álbum fala de amigos de cinquenta anos, de filhos, dos miúdos do bairro, e foi feito com convidados na voz, na guitarra e na bateria. Porquê chamar "Solidão" a um disco tão cheio de gente?

Boa pergunta. O álbum é declaradamente autobiográfico, e todas as músicas falam de experiências de vida minhas, fala sobre as minhas vivências e de algumas pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida. E creio que a minha principal conclusão, ao escrever as músicas, é que, embora sempre tenha estado rodeado de muita gente, sempre me senti sozinho, como se mais ninguém (ou muito poucas pessoas) me entendesse de verdade. Só descobri há dois anos, e por acidente, que esta é uma característica de pessoas neurodivergentes, como eu. Como digo numa das músicas, não é uma questão de ser melhor ou pior do que ninguém, mas a realização de que vejo o mundo de forma diferente da vasta maioria das pessoas foi algo duro de encaixar. É um mundo muito solitário, para mim.

Foram mais de 35 anos em bandas, dos 605 Forte aos Bruteforce, e só aos 50 chega o primeiro projeto em nome próprio. O que é que precisavas de dizer que não cabia numa banda?

Bom, tudo o que é dito no álbum, na realidade. Muitos sentimentos que só fazem sentido para mim, mas que espero que haja gente que se reveja nas letras das músicas, na solidão, na euforia da paternidade, etc. As bandas em que estive foram momentos bonitos da minha vida, muitos deles com amigos, mas neste momento senti que precisava de fazer algo mais "meu", onde o controlo criativo e de produção fosse total e não existissem dúvidas sobre a origem criativa da arte. Houve um largo período de reflexão, de outras vivências, entre 2012 e 2025, em que as prioridades não estavam na música. Felizmente, isso mudou.

Lançaste o álbum faixa a faixa, uma por mês, em vez de o entregar de uma vez. O que aprendeste pelo caminho? Houve alguma música que mudou, ou que mudou de lugar no disco, por causa da reação a uma anterior?

Na realidade, isso aconteceu porque vi algumas das bandas que eu sigo fazerem algo semelhante e, em algumas entrevistas dos músicos dessas bandas, tomei conhecimento de qual é a ideia por detrás da estratégia, com a qual eu concordo. Nessas entrevistas apercebi-me que é um sentimento comum na indústria da música que uma banda lança um álbum com 10 músicas, mas depois as métricas dizem que as pessoas ouvem as primeiras 2-3, ou até 4 músicas, e depois não ouvem o resto. Obviamente nem toda a gente faz isto, mas é uma percentagem relevante de pessoas que o faz. Então, a estratégia passa por lançar uma música por semana, ou a cada 2 semanas, para dar espaço às pessoas para ouvirem todas as músicas e criar vontade de ouvir qual a música que vem a seguir. O feedback que tenho recebido dos meus seguidores aponta exactamente nesse sentido. As pessoas ouviram todas as músicas, dizem qual gostam mais, qual gostam menos, o nível de detalhe de feedback construtivo é muito bom. E, por sua vez, permitiu-me ir incorporando esse feedback na música seguinte. Dou um exemplo, as primeiras músicas tinham uma influência mais de Nu-metal com várias partes de voz mais cantada e aberta, e algumas pessoas disseram que gostariam de ver algo mais thrash e cru. E eu incorporei esse feedback na música "A Matriz", que foi a sexta a ser lançada, onde não só a música é mais rápida (mais thrash metal) como tem um growl forte logo no início. Isto também me permitiu aprender muitas coisas novas, especialmente na voz, dado que eu nunca tinha sido vocalista em nenhuma das minhas anteriores bandas! :)

Falas em 7,3 milhões de visualizações e em 53 mil streams. A distância entre quem vê e quem ouve é enorme. Como é que lês esses dois números lado a lado?

Creio que são métricas diferentes e que medem coisas completamente diferentes. As visualizações medem atenção momentânea. Os streams medem intenção repetida em ouvir e seguir. Alguém que vê um Reel meu durante 8 segundos num scroll conta como visualização. Alguém que vai ao Spotify, procura o nome "Honorius Causa", carrega uma música e a ouve até ao fim, isso é outra coisa. Mais interessante ainda é o facto de que, por exemplo no Spotify (onde tenho a maioria dos meus ouvintes), o rácio de streams por ouvinte é de quase 17, ou seja, as pessoas que ouvem, em média, ouvem as mesmas músicas 17 vezes. Isto quer dizer que não só ouviram a música como voltaram para ouvir novamente.

Tudo isso sem editora, sem equipa de marketing e sem um cêntimo em anúncios. Na prática, o que fizeste todos os dias para a música chegar às pessoas? E o que tentaste que não funcionou?

Eu gosto de marketing digital, e tenho alguma experiência, portanto acho que os números são todos excelentes para um projecto musical desconhecido, a solo, sem editora discográfica nem agência de marketing. Dizer que não gastei um centavo em anúncios creio ser uma imprecisão, provavelmente induzi-vos em erro. Submeter músicas no groover, ou fazer um ad no facebook/instagram é, de facto, publicidade que se paga, mas creio que é uma prática standard do mercado musical hoje em dia. A forma como os algoritmos das redes sociais são construídos favorecem muito esta abordagem em que, por mais bom que o teu conteúdo seja, se não adicionares um anúncio, o algoritmo não lhe pega. Mas por outro lado, se o teu conteúdo for mau, mesmo com publicidade paga, o algoritmo pega mas não existe recepção positiva dos usuários. Portanto, o que resultou, para mim, foi que as pessoas gostam das músicas e o conteúdo das redes está centrado nas músicas e nas suas mensagens. O que não resultou tão bem foi algumas tentativas de colar artificialmente as músicas e o conteudo genuino a trends virais. Algumas vezes resulta, outras não. Depende, mas não continuarei a ir por aí.

Escreves sobre os subúrbios de Lisboa a viver em Dublin. A distância muda a forma como escreves sobre o sítio de onde vieste? Há alguma letra que só conseguiste escrever por estares longe?

Completamente! Foi preciso sair de Portugal para ter a visão que hoje tenho do meu país, tanto dos aspectos positivos como dos negativos. Afastar-me da política do dia-a-dia, por exemplo, fez-me ter uma percepção muito diferente de como se faz política em Portugal (e na Europa) e do quão semelhante é com o resto do mundo ocidental. A letra da música "O Berço e a Derradeira Estação" fala exactamente disso, que Portugal se converteu, infelizmente para muitos, num sítio onde nascemos e vamos morrer, com a passagem fugaz durante o verão... Há sempre a saudade, a vontade de voltar, mas depois existe a dura realidade que descrevo na letra, quando digo "que terra é esta que expulsa os seus e não dá futuro a quem lá nasceu." Portugal é, de facto, um país que de si (e dos seus) se esqueceu... E muitos dos meus amigos brasileiros que vivem em Portugal, dizem-me muitas vezes que sentem que Portugal pode até dar melhores condições de vida que nalgumas zonas do Brasil, mas fica muito aquém do que poderia ser. Lamentavelmente...

Cantas em português europeu, sem concessões, e tens ouvintes em mais de 80 países. Alguma vez pensaste em cantar em inglês? Que reações te chegam de quem não percebe uma palavra da letra?

É uma grande surpresa ter ouvintes em tantos países, acredito que sejam emigrantes portugueses a viver nesses países e que vão mantendo ligações a Portugal e "tropeçaram" nas minhas músicas. Cantar em Português foi uma decisão que fez todo o sentido no início do projecto porque o que eu queria dizer, neste álbum, nestas 10 músicas, tinha de ser dito na minha língua. Até porque, como disse antes, fala de histórias minhas, mas nas quais participaram pessoas que fizeram ou fazem parte da minha vida, todas portuguesas. Sobre o alcance, não podemos esquecer que o Português continua a ser a quinta língua mais falada do mundo, portanto não falta quem fale a nossa língua e fazer projectos em Português não diminui necessariamente o alcance da música. Houve amigos meus que não são portugueses e não falam Português, que ouviram as músicas e disseram que têm pena de não entender o que estou a cantar, mas gostam da música de qualquer forma. Seja como for, é bem possível que, num próximo álbum, haja músicas cantadas em inglês.

És baixista e assinas todas as letras, mas no projeto há outras vozes e outros músicos, como o Tiago Leonel, o André Trigo e o Kevin Douglas. Como escolhes quem canta e quem toca cada faixa, e como se grava um disco assim?

Também fui eu que compus e produzi todas as músicas, e no início até nem era para ser eu a cantar, porque não tinha experiência. Mas depois decidi que cantava eu, sendo um projecto a solo, fazia sentido que fosse a minha letra e a minha voz, ainda que pudesse haver quem não gostasse da minha forma de cantar ou tom de voz. Acaba por ser a minha identidade, e quem gosta, gosta, quem não gosta, paciência!

Houve vários amigos que se disponibilizaram para me ajudar no álbum e tocar ao vivo, e alguns deles acabaram a participar no álbum, como o Tiago Leonel e o NOXIN. Nesses casos, eu procurava um registo específico para uma parte da música, e felizmente as participações deles foram exactamente o que eu procurava. Por exemplo, na música "Democracia & Iliteracia" eu procurava uma fusão de hardcore e rapcore, e portanto um rapper que gostasse de metal. E o NOXIN encaixa como ninguém neste papel, dei-lhe liberdade criativa para alterar a letra da música na parte que ele cantava e a música ficou 1000x melhor do que a demo original. A participação do Tiago Leonel na música "Miúdos do Subúrbio Esquecido" foi semelhante, trata-se de uma música que, para mim, é um hino de homenagem aos amigos de infância que infelizmente morreram (infelizmente são muitos, demasiados) e queria alguém que tivesse uma voz digna de um hino, e o Tiago Leonel tem uma voz impressionante, o encaixe no refrão e bridge da música foi perfeito!

Para além disso, eu decidi, neste projecto, convidar um conjunto de músicos profissionais que me ajudaram com os arranjos finais e deram muitíssimo mais corpo e qualidade às músicas, muito para além do que eu compus inicialmente. Era algo que eu já andava a pensar fazer há algum tempo, um pouco porque quando estás numa banda com amigos, há sempre quem dedique mais esforço e quem dedique menos, e quando trabalhas com músicos profissionais, isso não acontece. Porque tu dizes que precisas de uma sequência de bateria dentro do gênero de X, ou um solo de guitarra na linha de Y, e um músico profissional entrega-te exactamente isso! É nesse âmbito que se encaixam as participações do André Trigo e do Kevin Douglas, que me ajudaram sobretudo com os vídeos de playthrough das músicas. Mas houve mais profissionais envolvidos, como, por exemplo, o Robin Stone (baterista australiano).

Quanto a gravar, basicamente foi feito tudo remotamente. Eu gravava as partes de baixo e a voz, as guitarras e baterias foram gravadas por vários profissionais, e no fim enviava cada faixa para o Engenheiro de Áudio Nik Palivos, dos Haunting Studios na Grécia, para ele misturar tudo e produzir o que vocês podem ouvir nas plataformas Spotify, YouTube Music, Apple Music, Deezer, etc. Para mim foi ideal, porque eu sou uma pessoa com vários compromissos pessoais e profissionais, e esta metodologia descentralizada funcionou muito bem.

O hardcore sempre teve fama de música dura, de gente que não fala do que sente. Tu escreves sobre saúde mental masculina, neurodivergência e paternidade. Como reagiu a velha guarda, a malta que te conhece desde 1991?

É verdade! São estilos! Eu acho que hardcore, na verdade, é falar do que tu sentes na mesma, mas muitas bandas preferem que as suas letras sejam de problemas de grupo, não pessoais. Vê os Biohazard, por exemplo, as letras deles falam maioritariamente de temas urbanos e sociais muito específicos da sua origem no Lower East Side de Nova Iorque. Pobreza, violência de rua, lealdade à comunidade, e a luta de sobrevivência nos bairros degradados de NYC dos anos 80/90. Eu falo mais ou menos das mesmas coisas, mas de uma lente mais pessoal. E quem me conhece desde 1991 sabe exactamente do que eu estou a falar, porque em muitos dos casos, estava lá quando eu vivi aquele momento. Quem não me conhece, provavelmente não entende as mensagens, mas em muitos casos tenho verificado uma identificação muito grande com as letras. O tema mais exemplificativo disso é a música "O peso que não se vê", que fala do quão duro é ser homem nos dias de hoje, o peso da responsabilidade de ser marido e pai, desde o meu ponto de vista. E tem sido, de muito longe, o vídeo nas redes sociais com mais reações e comentários de pessoas. Tem sido tão intenso que decidi fazer um novo vídeo clipe dessa música, porque muita gente disse que a música merecia um vídeo melhor e eu estou de acordo.

Para quem está no Brasil e nunca ouviu Honorius Causa: por que faixa do "Solidão" deve começar, e porquê?

Ooof é difícil escolher uma, eu gosto de todas! Eu diria para começar do início e ouvir até ao fim, porque há uma história no álbum que merece ser toda conhecida. Começa com o local onde eu nasci, fala do quão difícil foi crescer lá e dos amigos que ficaram pelo caminho. Depois fala do quão solitária foi a minha infância e adolescência, e passa para o como a passagem para adulto, marido e pai não foi nada fácil também. Depois fala de paternidade, passa para uma fase de frustração com a situação política do meu país, e acaba novamente numa nota mais pessoal sobre amizade e traição. Mas se tiver de indicar alguma música, as três que mexem mais com os meus sentimentos são "Solidão", "O peso que não se vê" e "No tecer dos anos 1". :)

"No Tecer dos Anos I" tem um "I" no título. Há uma parte II? E agora que o álbum está fechado, o que vem a seguir: palco, novo disco, descanso?

Na realidade a nona música chama-se "No tecer dos anos II" e tem uma curiosidade em que a última estrofe da "No Tecer dos Anos 1", é a primeira estrofe do "No Tecer dos Anos 2" e são sequenciais. A primeira parte fala de amizades longas que persistem ao fim de 50 anos, a segunda de amizades que acabaram ao fim de mais de 40.

Agora que o álbum está fechado, vou continuar a produzir vídeos e a promover as músicas. Há a possibilidade de dar alguns concertos mas não estou obcecado com isso até porque eu já dei muitos concertos entre 1991 e 2011, não é algo que eu sinta uma grande necessidade de fazer a toda a hora. E já tenho músicas novas na cabeça... ;)

Leia também: o guia de bandas de hardcore e o de thrash metal da Tribhus.


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